A velha estrada - também de peregrinação - vinha por ali acima, das bandas do Douro internacional (Barca de Alva), subia pelo Caminho de Alpajares ou de Candedo até à Quinta de Santiago (onde existiu uma antiga capela dedicada ao Apóstolo, hoje destruída, cuja imagem está na paroquial de Ligares) e seguia depois para Mós e Carviçais.
Um pouco acima, deparava-se-lhe o rio Sabor, sem ponte, era necessária uma barca para o passar: Barca de Santo Antão ou Santo Antão da Barca é a mesma coisa. Já estávamos na freguesia de Santiago de Parada. Depois, Vilar Chão, Vilar Seco, Castro Vicente e sua capela de S. Gonçalo, sempre a subir até Gralhós, lugar da freguesia de Talhinhas, concelho de Macedo de Cavaleiros, onde esperava o peregrino outra capela de Santiago, Izeda, Santiago de Coelhoso e, lá longe ainda, Bragança. Depois, era só seguir o caminho leonês, já referido por Fernão Lopes, até Santiago de Compostela.
A barca de Santo Antão
O caminho era importante e antigo, mas não só na peregrinação jacobeia. É curioso, no entanto, reparar como a devoção ao Apóstolo e até a S. Gonçalo de Amarante se espalhou ao longo do seu percurso. Por ele passaram de certeza muitos castelhanos e moçárabes vindos do Sul, pela Via da Prata, na demanda do célebre túmulo galego. O trajecto até nem era muito difícil, descontado o calor em tempo de Verão.
Mas o rio Sabor, sim, esse apresentava dificuldades à sua passagem, sobretudo no Inverno; e a solução da barca surgiu naturalmente. Mas fica a pergunta: porquê de Santo Antão? Vá lá a gente saber!
Seja como for, foi num dos picos mais altos da devoção jacobeia, século XIII, que a devoção a Santo Antão entrou em Portugal. Portanto...
Mas quem foi Santo Antão?
Santo Antão
Santo Antão (Antonius em latim, razão por que ele se confunde muitas vezes com Santo António de Lisboa) nasceu por volta do ano 251, no Alto Egipto, e morreu em 356 - portanto com 105 anos.
A segunda metade do século III, tempo de perseguição e martírio, foi para os cristãos um tempo difícil, no Ocidente como no Oriente. Porém, chegada a liberdade religiosa com o edito de Milão no ano 313, tudo mudaria. Enquanto que, até aí, o martírio era considerado a perfeição máxima da vida cristã, a partir de então as multidões que superficial e interesseiramente começaram a entrar na Igreja provocaram um verdadeiro terramoto no seu interior. Em tais condições, a fuga mundi (fuga ao mundo) apareceu aos mais exigentes como uma condição necessária para alcançar a mesma perfeição: solidão, ascese e contemplação. A exemplo das grandes religiões do Oriente, da índia à China, surgiram os anacoretas, os que fugiam do mundo e subiam ao deserto.
Foi o que faz Antão, jovem ainda, por volta dos seus 20 anos. Cristão de nascimento e de origem modesta, praticamente iletrado, mesmo rude na sua maneira de ser formada num rude trabalho de sobrevivência, protestando contra o lugar que na Igreja começavam a adquirir os intelectuais recentemente convertidos, subiu para o deserto, rompendo com o mundo que o vira nascer. Ali se entregou de alma e coração a uma vida solitária, pobre e tremendamente ascética, levando a letra as palavras de Jesus Não te preocupes com o dia de amanhã (Mt 6,34) e Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, bem e seguem-me (Mt 19,21).
Em dias de sua vida, apenas por duas vezes deixou o deserto para se deslocar a Alexandria: a primeira, durante a perseguição de Diocleciano, para exortar os cristãos à coragem na profissão da fé, expondo-se assim, ele mesmo, ao martírio: e uma segunda, no auge do debate com os arianos, para apoiar os bispos na defesa da ortodoxia. Entretanto, a rudeza da vida de privação a que se entregava começou a provocar-lhe debilidades físicas e mesmo alucinações devidas sobretudo à privação de alimento e de sono.
A partir dele e seguindo o seu exemplo, os anacoretas reunidos à sua volta foram sendo multidão, e Antão o seu pai. Posteriormente, com S. Pacómio (287-347) e S. Basílio (329-379), caminhariam lentamente para um maior enquadramento comunitário. São célebres as Palavras dos antigos ou os Apoftegmas dos padres do deserto, curtos textos ou pequenas histórias recolhidos da Tradição que guardaram ensinamentos destes mestres da vida cristã.
A devoção a Santo Antão estendeu-se, primeiro, por todo o Egipto, depois a Constantinopla, para onde foi levado o seu corpo, e finalmente à região de Vienne (em França), que pretendia possuir também as suas relíquias, para ali trasladadas em 1050. Henri Estienne (1531-1598), célebre humanista francês, ria-se desta duplicação das relíquias: Por fim, Santo Antão acabou por ter dois cadáveres inteiros e, para além disso, diversos outros membros, em diferentes lugares!
Foi de Vienne que a sua devoção se espalhou a todo o Ocidente, sobretudo depois de ali nascer a ordem hospitalar dos Antonitas ou Antoninos que se especializou no tratamento de doenças contagiosas: a peste, a sífilis e, mais tarde, a chamada fogo de Santo Antão (erisipela gangrenosa), epidemia grave e recorrente ao longo de toda a história europeia, proveniente do uso contínuo do pão de centeio que desenvolvia um fungo especial que a causava.
Com o fim de obterem os meios necessários para o combate a esta e outras doenças, os Antonitas dedicavam-se à criação de porcos. Os seus animais, com uma campainha ao pescoço, podiam deambular pelos terrenos baldios de toda uma vasta região e até mesmo entrar nas aldeias à procura de alimento, privilégio que provocava a inveja e até o protesto de outras ordens religiosas e mesmo das populações locais. Por esta razão, nas imagens de Santo Antão, o santo é sempre acompanhado por um porco, que mais parece um pacífico cão de companhia. Tornou-se mesmo o advogado destes animais e seus criadores (em Portugal, na reza do terço em família, todos os dias se pedia a Santo Antão nos cuidasse dos nossos animais), tendo-se por isso mesmo a sua devoção espalhado por todo o Ocidente (onde o porco foi sempre fundamental na economia doméstica, sobretudo com as especiarias chegadas da Índia, após as Descobertas). Na iconografia antonina, o porco não é, portanto, como muitas vezes se pensa, a personificação do demónio nem tem nada a ver com as famosas tentações de Santo Antão, expressão das fraquezas da carne, que - atrás se disse - eram na realidade vertigens e perturbações sensoriais causadas certamente pelas privações a que se entregava.
A devoção a Santo Antão em Portugal
A Ordem de Santo Antão terá entrado em Portugal no tempo do Conde D. Henrique, segundo uns, ou no de D. Sancho II, na opinião mais provável. Mas foi de certeza em Benespera (Guarda) o seu primeiro petitório, assim se chamavam os seus mosteiros. Não conheço o porquê deste termo que é provável, no entanto, tenha a ver com o designativo petit Antoine (pequeno Antão > António) que os franceses davam a este santo distinguindo-o assim do grande, o de Lisboa ou Pádua.
A partir daqui, a devoção a Santo Antão espalhou-se com certa intensidade por toda a região fronteiriça, mas nomeadamente em Safurdão (Pinhel), freguesia que ainda hoje o tem por orago. Daqui passaria para norte, Trás-os-Montes mais concretamente, onde seriam criadas mais três paróquias de sua invocação: Variz (Mogadouro), Vilarinho de Agrochão (Macedo de Cavaleiros) e Lagoaça (Freixo de Espada à Cinta). É também antonina a freguesia da Desejosa (Tabuaço). E antonitas são as de Santo Antão de Évora e de Santo Antão do Tojal (Loures). De lembrar ainda as paróquias de Olmos (Macedo de Cavaleiros), primitivamente dedicada a Santo Antão mas que hoje se diz de Santo António, e a desaparecida de Santo Antão de Courelas (Trancoso), hoje incorporada na de Santa Maria de Trancoso.
É, no entanto, muito frequente encontrar imagens de Santo Antão com seu porquito ao pé, espalhadas por esse país acima e abaixo, nas igrejas paroquiais e ermidas, as mais variadas, de outras invocações.
Para além do já citada petitório de Benespera, houve mais os de Santo Antão de Lisboa (Santo Antão-o-Velho, que não se pode confundir com o de Santo Antão-o-Novo, dos jesuítas, mandado construir pelo Cardeal D. Henrique em 1580), Santo Antão de Marvila (Lisboa), Santo Antão de Aveleiro (Pinhel) e S. Domingos de Basto (Viseu)
Tenho notícia de ermidas dedicadas a Santa Antão nos lugares seguintes: Faniqueira (Batalha), Pousafoles (Sabugal), Santa Maria de Sardoura (Castelo de Paiva), Souto de Aguiar da Beira, Ucanha (Tarouca), Videmonte (Guarda), Vila Boa (Sabugal), Vila Cova de Alva (Arganil), Vilarelho (Caminha), Vilarelhos (Alfândega da Fé) e Vilar Torpim (Figueira de Castelo Rodrigo). Houve uma outra ermida de Santo Antão em Arga de Cima (Caminha) que, a partir de certa altura passou a dizer-se de Santo António, hoje o orago da freguesia entretanto criada. Registe-se também que a citada ermida de Vila Boa (Sabugal), era de grande veneração nas redondezas e, na festa que ao santo se fazia a 17 de Janeiro, vinham devotos de todos os lados oferecer-lhe cereais, dinheiro, chouriços e pés de porco; era aí invocado como advogado contra a varíola. Existem ainda hagiotopónimos em Azevo (Pinhel), Benavila (Avis), Bogalhal (Pinhel), Lanheses (Caminha), Messegães (Monção) e Sinde (Tábua).
Em Azevo (Pinhel), um monte com o nome de Santo Antão indica - parece - um antigo castro; e em Penamacor realiza-se em 30 de Novembro uma feira de Santo Antão.
Este punhado de dados diz-nos da dimensão desta devoção santoral que conheceu relativa importância entre nós.
Santo Antão da barca
Não sei porque é que a devoção de Santo Antão se estabeleceu no lugar de Parada, sobranceiro ao Sabor. Mas acima fica dito que ela se fixou em diversos outros lugares da zona. E não se ignore como em toda esta região o porco era importante na alimentação das populações.
O mais curioso de tudo é a ligação das duas devoções, Santiago e Santo Antão.
No tecto da igreja paroquial de Santiago de Parada, existe um alto-relevo em madeira policromada que fixa uma lenda que a memória popular conserva ainda. Andava o Apóstolo Santiago por esta região, um dia, a pregar o Evangelho, quando aconteceu que, ao atravessar o rio [Sabor], ele e o seu cavalo foram arrastados pela corrente. Agarrou-se então Santiago a uma corda que, em socorro, lhe lançaram de um barco, e conseguiu salvar-se.
Isto o que me contaram. E como todas as lendas tem um fundo de verdade, é preciso interpretar. Trata-se, em minha opinião, da lendarização do sucedido com um peregrino que, a cavalo, se dirigia a Compostela. Ao atravessar o rio, terá sido arrastado pela corrente. De facto, o cavalo parece ter morrido no desastre - vêem-se, no referido alto-relevo, duas ferraduras perdidas no meio das águas revoltas - mas o peregrino ter-se-á salvo: uma mão desesperada agarra a corda lançada de um barco. Perdidas igualmente nas águas, duas vieiras.
De resto, o facto de a povoação se chamar Parada (Santiago de Parada) sugere repouso e restauração em antigo caminho, que foi inegavelmente de peregrinação jacobeia, como acima ficou dito. O estar situada à beira do rio Sabor sugere que a memória colectiva apenas transformou em lenda jacobeia a história de um naufrágio que deu brado.
Rio Sabor
Se o rio Douro acabou por cavar um grande desfiladeiro, como disse Miguel Torga, o Sabor um pouco a mesma coisa. Desde lá de cima, de Espanha, que é onde ele nasce, ladeando a seguir Bragança, até praticamente ao Douro onde entra a norte do Pocinho depois de se casar, um pouco antes, com a Ribeira da Vilariça, rasgou também ele um pronunciado desfiladeiro que é o leito do ser percurso. Rio não navegável e por vezes de difícil acesso, as populações procuraram-lhe muitas vezes, mesmo assim, as margens, mas com respeito. Nem são muitas as pontes que lhe passam por cima; o que quer dizer alguma coisa.
Ao longo do seu leito, organizaram-se micro-mundos de vida animal, botânica e humana. No entanto, O Sabor não é um rio em estado completamente virgem. Ao longo dos seus mais de cem quilómetros de curso, recebe esgotos urbanos e agrícolas que lhe comprometem a qualidade da água, sobretudo no Verão. Os seus vales mais acessíveis estão ocupados por alguma agricultura. Mas ninguém tocou ainda na sua configuração natural, serpenteando entre montes que mais o escondem que o revelam
(Público, 2004.06.26).
O vale do Sabor, esboço do paraíso?
Já há algum tempo que o sítio de Santo Antão da Barca, situado praticamente a meio da percurso do rio Sabor, estava ameaçado de ficar submerso pelas águas da uma barragem que querem construir por aqui, ele e parte importante do percurso do rio mais selvagem da Europa. Ultimamente, porém, a questão chegou às primeiras páginas da Comunicação Social. Uma simples consulta à internet dá-nos de imediato as dimensões de quanto está em causa com este projecto ou decisão.
Levantam-se as vozes: a favor e contra. As duas que seguem são apenas exemplos, e nem sequer se refere a opinião técnica da EDP.
Está muita coisa em questão: interesses económicos, desenvolvimento regional, defesa de patrimónios de toda a ordem construídos ao longo da história, riqueza ecológica, paisagem natural, etc, etc.
Nós, os portugueses, somos um povo muito curioso, para melhor e para o pior. Carregados de História, perdemo-nos dela. Deitamos fora o melhor de nós próprios. Construímos uma estrada, abandonamos a antiga aos buracos e às silvas. É necessário defender o património, é verdade, mas destruímos a paisagem limpa e bela, transformada hoje em caixote de lixo - digam-me uma estrada nacional que não nos faça passar sucessivamente por lixeiras, depósitos de entulho ao lado do seu traçado, que não esteja invadida pela floresta selvagem que vai arder no incêndio do próximo Verão. Mas então a paisagem não é património construído? O Minho em que se transformou? Os rios que são? Porque estão degradadas praticamente todas as estradas antigas, alternativas aos IPs e ICs? Porque estão os nossos velhos caminhos campestres tomados pelas águas no Inverno e pelas silvas no Verão, refugo de lixos clandestinos, abandonados do cuidado das autarquias que os não podem nem sabem cuidar e que muitas vezes não possuem outra riqueza a convidar o visitante?
Um belo campo de milho, um batatal, uma vinha, um laranjal, um complexo e engenhoso sistema de rega dos campos, a hidráulica ingénua mas eficaz que árabes e cistercienses nos ensinaram, um moinho ou um conjunto deles, uma velha construção - fruto por vezes de um orgulho desmedido, é verdade - mas marca de um tempo, da ermida agora esventrada donde punhos limpos já roubaram a imagem, a velha ponte está a cair, pedra e pedra, inverno a inverno, a calçada - romana, por vezes - já tem asfalto por cima para passar o tractor, a feira só vende plástico, pão quente e disco piratas, que é feito deste país?
Eu sei. Eu sei. O progresso, o desenvolvimento económico. Qual? A qualidade de vida. Qual? E as pessoas?
Parece que, a construir-se a barragem, a ermida de Santo Antão da Barca vai ser preservada, transferida para outro lugar. Passará a ser venerado ali também S. Francisco de Assis, o patrono da ecologia?
Que bom que fosse!
Mas a ser assim, voltando ao princípio, aumentaria o rol das devoções santorais em Santo Antão da Barca, freguesia de Parada, Alfândega da Fé. No princípio, Santo Antão. Depois, Santiago. S. Gonçalo de Amarante, anda por perto, como não podia deixar de ser. Agora, S. Francisco de Assis, o da ecologia.
É que as devoções santorais também têm épocas e modas.
Mais vale, como na Ladainha de Todos os Santos: Todos os santos e santas de Deus, rogai por nós!
Apoftegmas de Santo Antão
Alguém perguntou ao abade Antão: Que devo fazer para agradar a Deus?. O ancião respondeu: Observa o que te vou recomendar: onde quer que vás, leva sempre o teu Deus diante dos olhos; em tudo o que faças ou digas respeita sempre as Santas Escrituras; onde quer que habites, não andes sempre dum lado para o outro. Guarda estes três preceitos e serás salvo.
O abade Pambo interrogou o pai Antão: Que devo eu fazer?. O ancião respondeu-lhe: Não confies na tua justiça, não te aflijas com o teu passado, mas sê senhor da tua língua e do teu ventre.
Alguns irmãos vieram procurar o abade Antão para se informarem das visões que costumavam ter e perguntar-lhe se eram verdadeiras ou vinham dos demónios. Ora, eles tinham um burro que morreu durante a viagem. Quando chegaram, o próprio Antão, adiantando-se, perguntou-lhes: Como morreu o vosso burro durante a viagem?. E eles responderam-lhe: E como é que tu sabes o que aconteceu?. Foram os demónios - disse ele - que mo fizeram saber. E eles: Por isso mesmo é que nós viemos interrogar-te, pois receamos enganar-nos: é que, por vezes, temos visões que depois se revelam verdadeiras. E o ancião convenceu-os, com o exemplo do burro, que eram eles que vinham do demónio.
Faça férias cá dentro!
O lugar da Barca de Santo Antão está hoje completamente despovoado. Umas poucas casas fechadas, e pouco mais que o lixo deixado pela última romaria. O acesso ao sítio, belíssimo mas descuidado, exige coragem e decisão. Acima, a nova estrada e nova ponte a ligar Alfândega da Fé à velha EN 221 (de e para Miranda do Douro) que é excelente. Mas se espera por uma sinal indicativo da Barca de Santo Antão, no sítio em que devia existir, não desespere que ninguém a colocou lá. Mas eu indico, porque nem ao longe nem ao perto verá pessoas ou casas. Se viajar no sentido Alfândega da Fé -
Rio Sabor, repare bem numa placa indicativa da povoação Sardão. Logo a seguir, numa distância de 200 metros, repare bem, conte dois pequenos estradões saídos da sua estrada para a direita, asfaltados apenas no seu início: o segundo leva-o à Barca de Santo Antão, abaixo uns 4 Km. Mas olhe que o estradão exige muito cuidado e atenção, destemor e pouco amor pelo carro.
o autarca
O presidente da Câmara diz da importância da «barragem do Sabor pela sua importância na regularização do Douro, na produção de electricidade por fontes renov*veis e na constituição de uma reserva estratégica de *gua. Mas o ... concelho é o que mais interesse tem nos 55 milhões de euros que serão investidos no projecto. Basta que dez por cento fique na região, em cinco anos. Com uma indústria débil e mais de metade da população activa a trabalhar no comércio e serviços, qualquer obra é vista como um factor benéfico para a economia local. (...) O autarca não vê futuro para o turismo de Natureza no Sabor, tal como o rio está. A barragem, por sua vez, criaria 17 quilómetros de zonas com potencial recreativo, com água permanente. O que a Câmara ambiciona é constituir uma área protegida regional, envolvendo a zona da albufeira e a Mata Nacional de Reboredo, hoje gerida pelo Ministério da Agricultura. Só assim podemos ter um turismo ambiental competitivo, diz o autarca.» (Público, 2004.06.26)
a bióloga
A
bióloga
«conhece uma a uma, as aves que nidificam nas escarpas da região e que justificaram a classificação de parte da bacia do Sabor como zona de protecção especial para a avifauna. Haverá pelo menos oito casais de águias-de-Bonelli e 13 a 14 de águias-reais, além de cegonhas-negras e outras espécies de aves. Não são números assombrosos, mas esta população tem uma importância particular. Algumas espécies de aves do Douro Internacional estão a deixar de se reproduzir, e o Sabor é hoje a principal fonte de juvenis que dali saem para outras regiões do país. A riqueza das aves não é um sintoma de desertificação humana. Antes beneficiam de um mosaico de áreas naturais e zonas agrícolas. Estas espécies estão também aqui por causa do homem, diz a bióloga. O que mais a preocupa é o facto de a barragem vir a destruir um rio único, com consequências imprevisíveis. Rios como este já não existem!, afirma» (Público, 2004.06.26).
terça-feira, 26 de julho de 2016
terça-feira, 14 de junho de 2016
quinta-feira, 19 de maio de 2016
ANTIGAMENTE,
Tudo isto vem um pouco a propósito da polémica barragem do Baixo Sabor
Pessoalmente, tal como várias associações ambientalistas, vejo mais aspectos negativos do que positivos na construção da barragem
E lamento que os governantes se preocupem tanto em termos de produção de energia e tão pouco na redução do seu consumo… Mas a construção da barragem parece ser já inevitável
Na margem direita do Sabor, num local da freguesia de Parada (Alfândega da Fé) está situado a ermida de Santo Antão da Barca. Trata-se de um lugar tradicional de passagem deste rio, a vau no verão e, em tempos idos, de barca no Inverno. É de admitir que por este ponto, se fizesse a ligação entre Alfândega e Mogadouro no período medieval.
A barca não existe mais, mas existem ainda restos do cabo...
Barca
Entardece. Ainda uns raios de sol, já desmaiados
que se reflectem nos calhaus rolados que o rio afaga.
No ar, um silêncio que apenas o rumor do rio apaga,
rumor, ou talvez prece ao Senhor da Barca, ali ao lado.
Já não existe mais a barca que outrora foi real
mas na margem do rio, enferrujado,
testemunha de um tempo intemporal,
jaz moribundo um pedaço do cabo
que, a cada viagem, guiava a barca de uma à outra margem.
Regina Gouveia em Magnetismo terrestre
A ermida terá sido mandada construir pelos Távoras entre 1730 e 1750, segundo António dos Santos Lopes, autor da monografia “ O santuário de Santo Antão da Barca”publicada em 1994.
Na referida monografia consta que , concluída a construção da ermida, foi criada uma confraria com a inscrição de uma numerosa irmandade espalhada por todas as freguesias e lugares das redondezas. Existem
exemplares de estatutos da referida confraria, de 1895 e de 1911.
Destes últimos herdei um exemplar de meu pai, homem que sempre se empenhou em preservar aquele local de memórias. Fê-lo de diversas formas, integrando várias comissões de festas, custeando várias obras, e também através da poesia. De "Poemas Póstumos", livro editado em 2004 com poemas de sua autoria, esolhi o que segue:
No alvor daquela ermida
lá no fundo do rincão
está minha alma volvida
para o barqueiro Santo Antão.
Não perco a minha esperança,
não perco o meu amor
por Vós barqueiro da bonança
nesse porto do Sabor
Outros têm pugnado por manter vivo este local, nomeadamente António dos Santos Lopes, acima citado, meu tio por afinidade, dado que casado com uma irmã de meu pai, um tio avô meu, um dos irmãos do meu pai, autor das fotografias aéreas acima e que datam do início dos anos quarenta (século XX), bem como vários familiares do meu marido e outras pessoas
Apesar de tudo, a confraria nunca havia sido registada e as obras feitas no recinto foram, em alguns casos, verdadeiros abortos.
Malgrado o que foi referido, no primeiro domingo de Setembro ali se reúnem, para a festa anual, inúmeras pessoas não só do concelho de Alfândega da Fé como de outros, nomeadamente de Mogadouro e Moncorvo.
Assim sendo, não é de estranhar que também os devotos se tenham manifestado contra a construção da barragem do Sabor, pois criada a albufeira, o santuário ficará submerso .
Este ano fui à festa, movida não por razões religiosas, mas por querer testemunhar provavelmente a última festa no espaço que ali existe. Aqui ficam algumas fotos tiradas a par de outras já com muitos anos.

Têm decorrido negociações com a EDP e o santuário irá ser deslocado para um local um pouco mais acima, continuando com a água por perto
Manuel Gouveia, homem que ultimamente se tem empenhado de uma forma ímpar na defesa de todo o património do santuário e que já conseguiu a aprovação de novos estatutos bem como um enquadramento legal para a confraria, no seu livro Rio Sabor, publicado em 2004, faz uma antevisão dos tempos que se avizinham.
A par da “trasladação” da ermida espera-se que a EDP crie algumas infra-estruturas de acordo com um projecto que me parece bastante interessante.
Oxalá se concretize para que mais tarde não tenhamos que dizer:
E tudo a água levou…
Pessoalmente, tal como várias associações ambientalistas, vejo mais aspectos negativos do que positivos na construção da barragem
E lamento que os governantes se preocupem tanto em termos de produção de energia e tão pouco na redução do seu consumo… Mas a construção da barragem parece ser já inevitável
Na margem direita do Sabor, num local da freguesia de Parada (Alfândega da Fé) está situado a ermida de Santo Antão da Barca. Trata-se de um lugar tradicional de passagem deste rio, a vau no verão e, em tempos idos, de barca no Inverno. É de admitir que por este ponto, se fizesse a ligação entre Alfândega e Mogadouro no período medieval.
A barca não existe mais, mas existem ainda restos do cabo...
Barca
Entardece. Ainda uns raios de sol, já desmaiados
que se reflectem nos calhaus rolados que o rio afaga.
No ar, um silêncio que apenas o rumor do rio apaga,
rumor, ou talvez prece ao Senhor da Barca, ali ao lado.
Já não existe mais a barca que outrora foi real
mas na margem do rio, enferrujado,
testemunha de um tempo intemporal,
jaz moribundo um pedaço do cabo
que, a cada viagem, guiava a barca de uma à outra margem.
Regina Gouveia em Magnetismo terrestre
A ermida terá sido mandada construir pelos Távoras entre 1730 e 1750, segundo António dos Santos Lopes, autor da monografia “ O santuário de Santo Antão da Barca”publicada em 1994.
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exemplares de estatutos da referida confraria, de 1895 e de 1911.
Destes últimos herdei um exemplar de meu pai, homem que sempre se empenhou em preservar aquele local de memórias. Fê-lo de diversas formas, integrando várias comissões de festas, custeando várias obras, e também através da poesia. De "Poemas Póstumos", livro editado em 2004 com poemas de sua autoria, esolhi o que segue:
No alvor daquela ermida
lá no fundo do rincão
está minha alma volvida
para o barqueiro Santo Antão.
Não perco a minha esperança,
não perco o meu amor
por Vós barqueiro da bonança
nesse porto do Sabor
Outros têm pugnado por manter vivo este local, nomeadamente António dos Santos Lopes, acima citado, meu tio por afinidade, dado que casado com uma irmã de meu pai, um tio avô meu, um dos irmãos do meu pai, autor das fotografias aéreas acima e que datam do início dos anos quarenta (século XX), bem como vários familiares do meu marido e outras pessoas
Apesar de tudo, a confraria nunca havia sido registada e as obras feitas no recinto foram, em alguns casos, verdadeiros abortos.
Malgrado o que foi referido, no primeiro domingo de Setembro ali se reúnem, para a festa anual, inúmeras pessoas não só do concelho de Alfândega da Fé como de outros, nomeadamente de Mogadouro e Moncorvo.
Assim sendo, não é de estranhar que também os devotos se tenham manifestado contra a construção da barragem do Sabor, pois criada a albufeira, o santuário ficará submerso .
Este ano fui à festa, movida não por razões religiosas, mas por querer testemunhar provavelmente a última festa no espaço que ali existe. Aqui ficam algumas fotos tiradas a par de outras já com muitos anos.
Têm decorrido negociações com a EDP e o santuário irá ser deslocado para um local um pouco mais acima, continuando com a água por perto
Manuel Gouveia, homem que ultimamente se tem empenhado de uma forma ímpar na defesa de todo o património do santuário e que já conseguiu a aprovação de novos estatutos bem como um enquadramento legal para a confraria, no seu livro Rio Sabor, publicado em 2004, faz uma antevisão dos tempos que se avizinham.
A par da “trasladação” da ermida espera-se que a EDP crie algumas infra-estruturas de acordo com um projecto que me parece bastante interessante.
Oxalá se concretize para que mais tarde não tenhamos que dizer:
E tudo a água levou…
sábado, 6 de setembro de 2014
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
Novo Santuário de Santo Antão da Barca
Novo Santuário de Santo Antão da Barca | Festa em honra do padroeiro do espaço a 6 de setembro
A festa de Santo Antão da Barca, no concelho de Alfândega da Fé, já se vai realizar no novo Santuário. No recinto, ultimam-se os preparativos para acolher esta festividade. A Festa anual em honra do padroeiro deste santuário, acontece a 6 de setembro, altura que vai ser marcada pela bênção do novo espaço. Uma cerimónia presidida pelo Bispo de Bragança-Miranda, D. José Cordeiro.Recorde-se que este Santuário, situado na freguesia de Parada, Alfândega da Fé, foi deslocalizado devido à construção da barragem do baixo sabor. O local onde estava situado o antigo santuário ficará submerso pelas águas da albufeira. A Capela de Santo Antão, edifício datado do Sec.XVIII, foi trasladada para o novo local num processo de preservação patrimonial que assumiu características únicas no país.
Construído no cimo de uma colina, no local conhecido como sítio do Rebentão, a cerca de um quilómetro de distância do anterior, o futuro santuário replica a mesma relação com a água e a mesma orientação espacial, embora a uma cota mais elevada.
O novo santuário é constituído pela antiga capela, e por edifícios construídos de raiz como a hospedaria, um bar restaurante e um espaço museológico e administrativo.
Para a Câmara Municipal de Alfândega da Fé este local poderá assumir-se como um importante pólo dinamizador do turismo religioso/cultural no concelho, não só pelas valências e condições que tem associadas mas também pelo conjunto de pinturas murais, descobertas durante o processo de trasladação. Um importante conjunto que vai integrar a rota turística cultural que a Câmara Municipal quer desenvolver no concelho. Trata-se da rota “Pinturas da Fé”, um projeto que vai permitir visitar as pinturas murais a fresco e outras técnicas de decoração murária. Uma forma de valorizar, revitalizar e potenciar um património cultural, religioso e do concelho. Para além do conjunto de pinturas murais existentes na capela de Santo Antão da Barca esta rota abrange as localidades de Valverde, Vale Pereiro, Sendim da Ribeira e Legoinha. Nesta última foram feitas obras de restauro e recuperação da capela, que se pretende que se assuma como Centro Interpretativo da Rota.
sexta-feira, 26 de julho de 2013
ROMARIA
Romaria secular - Santo Antão da Barca ,por Virgínia do Carmo
O eremita Santo Antão é o santo da devoção dos milhares de pessoas que todos os anos, em Setembro, acorrem ao santuário localizado num vale profundo, junto ao rio Sabor, ladeado por margens íngremes, território de três concelhos diferentes.
Nenhuma pessoa viva pode precisar quando começou a devoção a Santo Antão da Barca, cujo santuário é ainda hoje palco de uma romaria que junta num vale profundo, dividido pelo rio Sabor, a seis quilómetros de Parada, freguesia do concelho de Alfândega da Fé a que pertence a capela, milhares de pessoas todos os anos, no primeiro fim-de-semana de Setembro.
Hoje em dia, os carros descem ao vale, através de um caminho íngreme mas possível até para os veículos sem tracção, e o regresso, por isso, acontece mais cedo. Mas em tempos, era a pé ou de macho que o percurso de cerca de sete quilómetros a partir do lugar de Sardão era feito. E o regresso, esse só acontecia ao romper da aurora do dia seguinte, como recorda a senhora Guilhermina, de 76 anos, uma das poucas que ainda habita no lugar de Sardão. "Havia dois caminhos", recorda, "um para os machos e outro para as pessoas". "Vínhamos por volta do meio-dia", prossegue, e quando lhe perguntamos se era uma boa oportunidade para "engendrar" namoricos, responde prontamente que sim. Afinal, tratava-se de uma oportunidade rara de convivência um pouco mais prolongada entre rapazes e raparigas. Por todos os cantos se viam "a conversar", diz a D. Guilhermina.
Uma romaria que traz a memória de lendas e milagres relatados pelos fiéis.
Nenhuma pessoa viva pode precisar quando começou a devoção a Santo Antão da Barca, cujo santuário é ainda hoje palco de uma romaria que junta num vale profundo, dividido pelo rio Sabor, a seis quilómetros de Parada, freguesia do concelho de Alfândega da Fé a que pertence a capela, milhares de pessoas todos os anos, no primeiro fim-de-semana de Setembro.
Para lá vão dois caminhos, um que parte do lugar de Sardão, no concelho de Alfândega da Fé, e outro de Meirinhos, no concelho de Mogadouro, fazendo ainda fronteira com a ermida as freguesias de Carviçais e Felgar, do concelho de Torre de Moncorvo.
Os crentes, esses vinham outrora de todas as aldeias circundantes num raio de distância significativo, e hoje talvez mais reduzido, desde Carviçais a Castro Vicente, de Mogadouro a Vila Nova de Foz Côa.
O tempo, depois da missa e da procissão, que já há muitos anos segue por um arruamento aberto exclusivamente para o efeito, era passado a dançar e a cantar quadras, algumas delas feitas para a ocasião, mas que a D. Guilhermina já não consegue repetir na íntegra. Os homens jogavam "ao ferro", lembra, e havia ainda animação musical. Bandas, diz, chegavam a ser "três ou quatro". À noite, ninguém dormia, a não ser as crianças, que acabavam por não resistir ao cansaço e eram então deitadas em mantas, ao relento
A história e as lendas
A capela foi mandada construir pelos Távoras, família proprietária de grandes herdades naquela região, há mais de 200 anos, no local conhecido como Poço da Barca, pois nesse local o rio era atravessado de uma margem para outra por uma barca que transportava pessoas e mercadorias diversas, como relata António dos Santos Lopes, numa pequena compilação de dados que reuniu num livro sobre a ermida. Segundo este autor, a última barca terá desaparecido no ano de 1953. Mas esta capela terá, segundo a lenda, substituído uma outra mais antiga, erguida já em honra de Santo Antão, eremita egípcio que terá vivido nos séculos III e IV, até aos 105 anos de idade, adoptado, então, pelas gentes da região como padroeiro da barca.
Os populares nem sempre relatam esta versão da história do santo padroeiro. A maioria das pessoas, especialmente as mais velhas, contam outra, embora as duas não sejam necessariamente incompatíveis. Dizem que este santo terá dado todos os seus bens aos pobres, dedicando-se depois à humilde tarefa de guardar porcos. Isto explica a imagem do santo, que tem aos pés a figura de um porco, e numa das mãos a campainha para chamar os animais quando se dispersavam.
São também os populares que relatam alguns dos milagres alegadamente alcançados por intercessão do santo, muitos deles têm a ver com barcas que se afundavam, sem que no entanto ninguém perdesse a vida. Um dos mais importantes, e que os populares puseram em verso, terá acontecido num dia de Natal. Transportava a barca doze pessoas e "cinco bestas", quando se afundou no rio, causando grande agitação nos que da margem viam o desastre. Todos recorreram então a Santo Antão, e todos acabaram por se salvar, incluindo os "cinco jumentos carregados" sem qualquer "prejuízo".
Um outro milagre que os populares relatam tem a ver com outro objecto da devoção das gentes locais: o Divino Senhor da Barca. Reza a lenda que, em tempos, as gentes da aldeia de Meirinhos quiseram roubar a imagem para a sua igreja, o que chegaram a fazer. Mas quando se deslocavam na barca para a outra margem, a imagem ia-se tornando mais pesada e começava a estalar, pelo que os forasteiros se viram obrigados a regressar e a deixar a imagem na capela onde hoje permanece.
Romaria secular - Santo Antão da Barca
por Virgínia do Carmo
A capela foi mandada construir pelos Távoras, família proprietária de grandes herdades naquela região, há mais de 200 anos, no local conhecido como Poço da Barca, pois nesse local o rio era atravessado de uma margem para outra por uma barca que transportava pessoas e mercadorias diversas, como relata António dos Santos Lopes, numa pequena compilação de dados que reuniu num livro sobre a ermida. Segundo este autor, a última barca terá desaparecido no ano de 1953. Mas esta capela terá, segundo a lenda, substituído uma outra mais antiga, erguida já em honra de Santo Antão, eremita egípcio que terá vivido nos séculos III e IV, até aos 105 anos de idade, adoptado, então, pelas gentes da região como padroeiro da barca.
Os populares nem sempre relatam esta versão da história do santo padroeiro. A maioria das pessoas, especialmente as mais velhas, contam outra, embora as duas não sejam necessariamente incompatíveis. Dizem que este santo terá dado todos os seus bens aos pobres, dedicando-se depois à humilde tarefa de guardar porcos. Isto explica a imagem do santo, que tem aos pés a figura de um porco, e numa das mãos a campainha para chamar os animais quando se dispersavam.
São também os populares que relatam alguns dos milagres alegadamente alcançados por intercessão do santo, muitos deles têm a ver com barcas que se afundavam, sem que no entanto ninguém perdesse a vida. Um dos mais importantes, e que os populares puseram em verso, terá acontecido num dia de Natal. Transportava a barca doze pessoas e "cinco bestas", quando se afundou no rio, causando grande agitação nos que da margem viam o desastre. Todos recorreram então a Santo Antão, e todos acabaram por se salvar, incluindo os "cinco jumentos carregados" sem qualquer "prejuízo".
Um outro milagre que os populares relatam tem a ver com outro objecto da devoção das gentes locais: o Divino Senhor da Barca. Reza a lenda que, em tempos, as gentes da aldeia de Meirinhos quiseram roubar a imagem para a sua igreja, o que chegaram a fazer. Mas quando se deslocavam na barca para a outra margem, a imagem ia-se tornando mais pesada e começava a estalar, pelo que os forasteiros se viram obrigados a regressar e a deixar a imagem na capela onde hoje permanece.
Romaria secular - Santo Antão da Barca
por Virgínia do Carmo
TESTEMUNHO:
Passei muitas vxs de barca para ir á festa do Stº Antão e dormi muitas noites ao relento à espera do romper d'aurora para poder regressar a Carviçais minha terra natal. Desses tempos embora dificies guardo boas recordações. A paisagem era maravilhosa e o convivio era saudável. Em nome do progresso tudo vai sendo alterado ou modificado até, a mente das pessoas vai ficando mais preversa.
Antónia Lopes
Antónia Lopes
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